A máscara caída

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Filosolia/Teologia

Caminhando pelos trilhos da verdade sobre o verdadeiro eu.

AR

A máscara caída

Construí para si uma imagem,
frustrei-me quando percebi que sou um impostor.
Desfaleci, quando vi minha verdadeira identidade refletida em um dia oportuno e ordinário.
Morri, quando minha máscara caiu sobre as poças d’ lágrimas.
Lamento, pois falhei em tudo.

Atordoada minha mente
O chão molhado
Faz-me ver o reflexo daquilo que sou.

O que sou?

Sou de mim o que desconheço,
E o que podia fazer de mim não faço.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
— Fernando Pessoa


Imagens, quantas vezes fizemos nós mesmos?

A imagem sempre sendo um salto para frente:
quem eu acho que sou,
quem eu prometo ser,
quem eu quero parecer.

O problema disso é a ignorância de quem eu sou agora.

Pedro, apóstolo de Cristo, também construiu para si uma imagem dele mesmo:

Então Pedro disse a Jesus:
— Estou pronto para ser preso e morrer com o Senhor!

Ele viu aquilo que ainda não era;
Ele quis ser aquilo que não estava pronto para ser;
Em sua ignorância, negou não apenas o seu Mestre, mas também o verdadeiro eu, cobrindo-o com uma máscara.

Pedro, pobre Pedro, tu estavas vivendo uma inautenticidade, baseada em uma imagem idealizada de si mesmo não correspondida à realidade.

Ó, Pedro, o que fizeste quando a verdade veio à tona?

Eu chorei amargamente”
— Lucas 22:60–62

Além de Pedro, há Fernando Pessoa, quando diz:

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
[...]
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Fernando Pessoa, o que fizeste quando descobriu a sua falsidade diante de si mesmo?

“Eu me amargurei; o sabor da vida ficou amargo.”
— Fernando Pessoa

Nesse trecho do poema Tabacaria, vemos a sensação de não saber propriamente aquilo que é. Pessoa, é um indivíduo já lúcido, e viu a necessidade humana tola, de querermos parecer aquilo que não somos para nos enquadrarmos socialmente, para agradarmos os outros. Isso, obviamente, não dita o que somos. Depois de tanto tempo usando a sua máscara(o eu-lírico finalmente renunciando àquilo que construiu de si, apenas para satisfazer os outros; aquilo que o fez perder a própria identidade, inutilmente, vaidosamente e miseravelmente), Fernando enfrenta a dificuldade ao ter que retirá-la. Quando consegue, percebe como o tempo passou e como envelheceu enquanto aparentava ser outra coisa.

Talvez, ao se olhar no espelho, no reflexo genuíno do eu de verdade, se perguntou: "Quem és tu, impostor?"


Dois grandes homens experimentando a mesma coisa:
a inautenticidade.

Contudo, há um Ser, uma Identidade sublime no meio desses dois homens.

O mesmo que respondeu Pedro, dizendo:

Então Jesus afirmou:
— Eu digo a você, Pedro, que hoje, antes que o galo cante, você dirá três vezes que não me conhece.

Jesus olha para Pedro e vê quem ele realmente é:
alguém que o negaria três vezes.

Jesus ama Pedro não pela imagem que ele vende,
mas pelo que ele é.

Jesus também olha para Fernando Pessoa, tornando-o lúcido o suficiente para perceber aquilo que ele não era.

Por isso, Fernando diz:

“Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer…”

Apenas com um olhar de Cristo o homem pode chegar à lucidez de si.
Com apenas um olhar de Cristo o homem enxerga sua miséria. E ai vem a verdade: Sou um indivíduo deplorável, lamentavelmente na condição de miséria. Minha maior condenação reside na negação dessa condição, pois como o Ser Misericordioso poderá manifestar Sua clemência?"

Conheço-me, não pelo que sinto de si, Mas pelo relacionamento que tenho Contigo, ó Deus.

Quanto mais busco conhecer a Deus,
mais sou levado a conhecer a mim mesmo;
e quanto mais conheço a mim mesmo,
mais sinto a necessidade de Deus.

Vemos que somos necessitados de Deus,
assim como Pedro e Fernando Pessoa.


E você, leitor, quem és tu? Ao olhar para dentro de si, vê um impostor ou seu verdadeiro eu? Que máscara está usando hoje?

Eu não sei quem és tu;
E tu não sabes quem sou eu.

Mas eu sei que posso ser algo, e você também.

Quem sou eu?
Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã outro?
Sou ambos ao mesmo tempo?

Diante dos outros, um hipócrita,
e diante de mim mesmo,
um fraco desprezível e queixoso?

Ou aquilo que ainda vive em mim
assemelha-se a um exército derrotado,
que foge em desordem
diante de uma vitória já alcançada?

Quem sou eu?
Essas perguntas solitárias zombam de mim.

Quem quer que eu seja,
Tu me conheces; Teu sou eu, ó Deus!
— Bonhoeffer

A fé cristã não se reduz ao que alguém pode afirmar sobre si mesmo como autêntico.

A relação com Cristo liberta para uma autenticidade finita.

A relação com Deus não exclui a liberdade de ser quem se é;
antes, ela a fundamenta.

Independentemente de quem tu sejas,
Cristo olha para você na verdade mais nua e crua do seu coração,
e te ama.

E tu podes ser Dele, e assim dizer: "Tu me conheces; Teu sou eu, ó Deus!"


Como cheguei a ter essas pensamentos?

É amigos, eu estava numa crise imensa sobre máscara e identidade.

Passava noites em claro pensando nisso:
“Aquilo que digo que sou é verdade?”

Poemas e mais poemas foram feitos — poemas amargos, muito amargos.
Pesquisas e mais pesquisas também.

Graças a Deus, cheguei numa conclusão:

sou de Deus.

Pode parecer simples, mas não é.

O meu relacionamento com Deus me diz quem eu sou eternamente,
quebrando o espaço tempo e até as mais altas filosofias.

Ser de Deus é ser eterno,
alcançando a plenitude daquilo que realmente fui gerado para ser.

Novas cores, novos cheiros, novas indagações —
tudo novo e eternamente eterno posso experimentar,
pois eu sou Cristo.

Acho que assim como Cristo curou Pedro,
Ele me curou.

A graça de Cristo me diz quem eu sou.


Por fim, o que quero dizer é que a verdade do eu não está totalmente acessível nem ao próprio indivíduo.

Ela é conhecida plenamente por Deus.

Por isso, a autenticidade do homem não é simplesmente ser fiel aos próprios sentimentos.

É algo mais profundo:

tornar-se aquilo que Deus vê quando olha para você.